PENSAR COM OS MEUS BOTÕES

“PORTO SENTIDO”

Posted in Política e Sociedade: Artigos de Opinião by Manuel Coimbra on 04/01/2011

            “Quem vem e atravessa o rio/Junto à serra do pilar/vê um velho casario/…” todo a se degradar. Bem que gostaria de continuar a citar todos os versos deste poema de Carlos Tê, interpretado e musicado pelo Rui Veloso, que exprime um profundo sentimento de amor e de saudade (quando estamos longe do Porto) pela nossa cidade (dos portuenses e de todas as pessoas que nela trabalham, vivem e a têm no coração), mas o que me move é um sentimento de tristeza por ver a nossa cidade a degradar-se dia após dia sem que a câmara municipal faça os investimentos necessários para recuperar o património arquitectónico que é nosso e dos vindouros.

            O presidente da câmara ao longo dos seus mandatos nunca dirigiu a sua atenção para este “velho casario”, que é património mundial e que começou a ser recuperado pelos presidentes anteriores a ele. Quem passa pelas ruas e praças da cidade vê verdadeiras jóias arquitectónicas abandonadas à sua infeliz sorte, muitas delas em elevado grau de degradação, pondo até em risco a segurança dos cidadãos que junto a elas passam. A incúria deste presidente da câmara deve-se com certeza ao facto de ele pôr à frente dos verdadeiros interesses e necessidades do Porto os seus interesses e motivações pessoais. Todos sabem que um dos seus grandes prazeres são os automóveis e assim investiu milhões no reavivar do circuito da Boavista alegando que iria internacionalizar o nome da cidade do Porto. Argumento falacioso contudo, pois já antes a cidade era conhecida mundialmente através do famoso vinho do Porto e reforçou a sua posição internacional quando a Unesco a considerou património mundial.

            Até se poderia ter investido no circuito internacional da Boavista, mas só depois de se ter resolvido o problema premente e urgente de restaurar as casas da cidade que estão a cair em ruínas. Os milhões que poderiam ter sido aplicados na recuperação do casario da cidade estão a ser exauridos pelos tubos de escape dos bólides que correm no circuito da Boavista de dois em dois anos.

            Dou-vos o exemplo da Rua de Trás, que das cem casas que tem só duas é que estão restauradas (talvez por estar atrás é que se julgue que a sua degradação passa despercebida). É bem o momento de citar agora uma quadra do “Porto Sentido”:

                                               “Ver-te assim abandonado

                                                  Nesse timbre pardacento

                                                  Nesse teu jeito fechado

                                                  De quem mói um sentimento”

            É bem o momento de todos os cidadãos, portuenses ou não, que amam esta cidade, exigirem dos governantes deste país e dos responsáveis camarários, que se têm pautado somente pela defesa dos seus interesses e motivações pessoais e dos lobbies que servem, respeito pela cidade, através da canalização de projectos e investimentos que assegurem uma melhoria das condições de vida das populações que vivem no centro histórico e noutras áreas degradadas da cidade e da preservação, de uma vez por todas, deste grandioso património que é de todos nós.

            Os meus votos de Ano Novo vão para a cidade do Porto: desejo, com certeza que desejamos todos, “Rever-te nessa altivez / De milhafre ferido na asa”, que recuperado da ferida voes pelo caminho de um futuro mais próspero.

 Manuel Coimbra